COM QUANTAS SESSÕES SE FAZ UMA CURA

"Eu ficarei bem depois de quantas sessões?" Eis a pergunta incontornável e carregada de expectativas que todo terapeuta escuta na primeira sessão e que, geralmente, recebe a mais frustrante das respostas, o tal

DEPENDE

Ouvir um “depende” pode ser bem irritante, mas acredite, é uma resposta honesta e realista, e acredito que ao entendermos melhor os fatores que moldam essa palavra, mais o tratamento ganha contornos assertivos. Elenquei alguns deles para aprofundarmos o diálogo. Vem comigo?


Cuidado participativo

O comprometimento com o processo terapêutico é o primeiro passo para alcançar qualquer melhora. O adoecer não é um ato espontâneo. Nós cultivamos ao longo da vida, diversos hábitos que agridem continuamente o equilíbrio mente-corpo. Uma gastrite, uma depressão ou lombalgia já foram dores quietas ou difusas, antes de ganharem a expressão atual. Se dispor a subverter as leis de uma rotina adoecedora, e compor novos movimentos de vitalidade para si é oferecer um salto qualitativo ao tratamento. As soluções para o mal estar passam, necessariamente, pelo olhar ativo do indivíduo sobre o que o próprio corpo sente e produz.


Frequência

A frequência tem impacto significativo no plano terapêutico, e isso está cada vez mais evidente nas pesquisas científicas. De mioma à artrose, os protocolos de acupuntura incluem, no mínimo, 2 sessões semanais, mas é comum ver protocolos com 3, 4, 5 sessões por semana, com duração de 1 a 6 meses de tratamento. A acupuntura semanal é excelente para manutenção da saúde e também para casos leve, todavia quanto mais complexo o quadro, maior a demanda de cuidado intensivo. Para terapias manuais como massoterapia, alongamento e liberação miofascial, o mesmo se mostra verdadeiro.

Isso significa que se você não tem condição ou acesso ao cenário ideal é melhor nem começar? Não. Faça na frequência possível, mas faça. A eficácia pode ser menor, comparada à capacidade total da técnica, e o resultado tende a ser mais lento, mas haverá progressos!

Dica importante: Quanto menor a frequência do estímulo mais indispensável se torna as recomendações do terapeuta que extrapolam o consultório, como os chás, alongamentos, alimentos, exercícios respiratórios e etc. E claro, regularidade é vital! Tente ao máximo não faltar, independente do número de sessões acordadas.


O tempo da dor

É comum pessoas procurarem as terapias orientais depois de peregrinarem por meses ou anos entre médicos e especialistas. Uma pena! pois quando o problema encontra a agulha logo no início, a chance dela ser certeira e rápida na cura é grande. O problema, ao se tornar crônico, demanda mais resiliência do indivíduo, pois costuma refletir padrões de deficiência energética, algo mais trabalhoso de reequilibrar.

Que tal inverter a lógica do cuidado? Invista na manutenção da sua saúde, e nos primeiros sinais de desequilíbrio busque a acupuntura; massagem; a fitoterapia. Identificar sinais é um exercício de autoconhecimento, e por isso nem sempre você será bem sucedid@, mas não tem problema, siga tentando atenciosa e constantemente. O aprofundamento da prática reverberará com o tempo. Nos casos traumáticos, infecciosos, degenerativos ou de crise emocional, todas essas terapias são bem vindas, mas de forma complementar, em ação conjunta com outros profissionais da saúde.


Ausência dos sintomas não é sinônimo de cura

É extremamente comum, as pessoas se darem alta quando não sentem mais dores, algo que desaconselho, apesar de entender o que move tal decisão. Acredito na condução do cuidado com responsabilidades e decisões compartilhadas, e a alta precisa se alinhar a essa premissa. Um profissional ético irá sugerir a alta no momento adequado, esclarecendo as motivações para tal e oferendo orientações sobre o próximo passo. Uma interrupção precoce pode resultar no retorno rápido e indesejado dos sintomas.


Singularidade

O sonho de qualquer terapeuta é poder prever, com exatidão, o número de sessões necessárias para o cliente receber alta. Certamente é possível calcular uma média a partir de experiências anteriores, e é exatamente essa média que usamos de referência para nortear o tempo de tratamento, mas o que se pode mesmo afirmar é que cada história de adoecimento é única, assim como o ser humano que a carrega, e por isso o tratamento não seria diferente. O corpo é singular e não se cansa de nos surpreender!


O que significa ficar bem?

A expressão “Ficar bem” abarca diversas perspectivas de bem estar, não só por refletir um sentir subjetivo, mas porque, a depender do problema, ela poderá ou não significar a remissão completo do quadro, horizonte desejado por todos os envolvidos. Um exemplo dessa relatividade interpretativa são os quadros degenerativos, onde o objetivo terapêutico principal é desacelerar/estabilizar o avanço da doença, e isso muitas vezes significa não piorar os sintomas, e conquistar uma leve ou moderada melhora. Claro, os avanços na ciência e as inovações medicinais advindas da fusão entre culturas e saberes, apontam cenários otimistas de tratamento, mas independente do horizonte alcançável ele precisa se atrelar ao ganho e sustentação da qualidade de vida do indivíduo.


Responder "depende" pode soar como pura incerteza, mas é um dizer honesto sobre os caminhos e tempos plurais que um corpo percorre, a fim de mudar tal resposta. Não há como cravar datas sobre processos, mensurar subjetividades ou prever a potência de um ser em cura. Estar bem é conseguir, em um ato de sinceridade com o possível, abraçar a travessia do tempo com qualidade.


E é uma honra compor cada travessia que chega até mim Com carinho

Eloísa Fernandes


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